19 de out. de 2009
Triste de tanto comer
Cheio de tanto escutar
Cansado de tanto ver
Molhado de tanto suar

E tudo se repetindo
O primo aleijado chora
Não pode brincar de correr
O primo encapetado berra
Ri alto até quase morrer

A prima que tinha espinha
Agora tem namorado
Taxista renomado
Já transportou deputado

A Tia magra de saia
Faz o papel da árvore colorida
E só para de falar
Pra mastigar a comida

Sentada no canto da sala
A vizinha deprimida
Perdeu o marido e os filhos
Alguém cochicha: "foi batida, foi batida"
Todo mundo ouve calado
E o aleijado se mija

E servem a mesa vermelha
Com cadáveres diversos
O marido novo de alguém
Vegetariano e advogado
Faz um discurso de protesto

E servem o segundo prato
E servem o terceiro prato
Peru, pato, leitão
Frango assado serve no quarto ao lado
A cunhada nova pro Ricardão

E entra na porta armado
Vestido de Papai Noel
O irmão todo exaltado
Pra encerrar o natal
Dá três tiros, afobado
No papagaio
Na parede
E no céu

E termina o natal
Sem sobremesa e sem graça
Como sempre ano que vem
Vai ser a mesma desgraça

Um alguém chamado Zé

18 de out. de 2009
De Vênus veio o Zé
Sem saber onde chegara
Perguntou: - Qualé?
Sem saber de onde ele vinha
Respondi : - Qual foi?
E brigamos

Zé era baixo como
Bem feio como
De cabelo duro como
Gordo (gordo) como
A maioria de nós é

Zé tinha tatuagem
Zé tinha dentes brancos
Zé tinha sapatos
Maiores que o pé

Tinha o olhar longe
Tinha vontade de ser monge
De ganhar na loteria
Isso o Zé sempre pedia

O Zé era gente fina
Conversava a noite toda
Bebia sempre que podia
E sempre que não podia

O Zé era
Um Zé ninguém

Nunca tinha trabalhado
Estudado ele já tinha
Nunca tinha namorado
Transado ele já tinha
Nunca tinha tido amigo
Essa parte foi comigo

Mas o Zé
Pensava como ninguém
Argumentava como ninguém
E ria de qualquer bobagem

Um dia, um belo dia
Aquele dia qualquer
Quando ninguém imagina
Morre de overdose o Zé

Zé-presunto desceu o rio
Desaguou lá no bem longe
E sumiu não sei pra onde
Vestia blusa de frio
Calça laranja e boné

Nesse dia ele partiu
E não desaguou no mar
Zé se prendeu num galho
E preso lá deve estar
16 de out. de 2009
Da libido
Tenho medo
Nâo se pode
Vacilar
Ou contar
Algum segredo

Da saudade
Que suave
Invade
O rim
Eu não deixo
De gostar

Da linguagem
Obscena
Que condena
Que condena
Faz bem
Um bem bom

Da posição
Do lustre
Só lembranças
Tantas, tantas
Ah!, bom tempo
De criança
12 de out. de 2009
Quando quero foto de criança
Escrevo criança e acho

Se quero uma nebulosa escura
Digito e sempre encontro

Flores floridas em março
Cadeiras, bolos e chapéus

Inocentemente procuro
E vem a mim saltitantes


Me descontrolo se quero
Encontrar uma mulher composta
Mesmo que esteja de costas

Encontrar uma freira amiga
Mesmo que pouco vestida

E se tento uma ninfa virgem?
Impossível, impossível...

Alguém sopra ao meu ouvido
“Se for isso que quer achar,
Escreve Boceta”

Luamádentrô

Uma lua luou num luar radiante
Esfregou na minha boca teu corpo excitante
Expurgou seu gozar num claríssimo instante
E se foi, foiseindo pro inferno de Dante
E me deixou deixado no prefácio eterno
Num início doloroso, dolorante
Vazou a lua no mar, luamadentrô
Rapariga!
Neguinha que padece de usura
Não esquece nenhuma amargura
Quebra a esquina do pecado nua
E anda de tamancos na calçada
Não sente dor, tristeza, espanto
Mais se pagam bem se esconde em algum canto



Sobe o telhado paladinha
Vai espiar o filho da vizinha
Da comida de manhã pro gato
Toca o seio e troca o sapato
Veste um terninho, assim, bem passado
E rebola-desce a ladeira do mercado
Sem pensar em nada, espevitada
Guardando mágoa da vida passada



Tempo bom de empregada
Lavar, passar, cozinhar o patrão
Limpar tudo até ter promoção
Perder o emprego e a comunhão
Cuspir a hóstia sagrada no chão
"Mulher cabrita aqui entra não"



Ganhou meio dia pedaço de pão
Esbravejou, não quis esmola
Pau-de-arara,leva a vida na sacola
Rodoviária, trepa, ganha, come
A fome dói quando se sente fome



Resmungar e viver sua vida
Sonhos distantes na manhã sofrida
Lavar latrina pra ganhar trocado
Bunda pra cima e tá tudo arrumado
Pegar o mote debaixo da pança
Lembrar do tempo que já foi criança



Olhar no olho da ingenuidade
E tudo aquilo agora é só saudade
Amarga o peito e chora com vontade
Escorre o rosto a lágrima salgada
Triste destino da mulata
Boa de lida, de cama e de estrada

Definição minimalista sobre o mundo II

O mundo é um cabaré, às vezes, paga-se pra gozar, às vezes, goza-se sem pagar.

Desmembrando o Frango Assado

10 de out. de 2009
Quando a menina inventou
Essa suave posição
Não ousaria pensar
Em quanta perversão
Lançou

O garoto tímido
Que no quarto se escondia
Viu seu tio advogado
Escalando sua tia
Gozou

O operário cansado
Com a marmita na mão
Viu da secretária os tamancos
Na janela do patrão
Sentou

A garota que acompanha
Sempre farta da sua lida
Obedece ao comando
De levar perna na orelha
Cansou

A senhora da estrada
Que não tinha opção
Encontrou jovem empresário
E na vida salvação
Pôs suas pernas pro alto
E na alta do tesão
Casou

Fita Rosa No Cabelo

Sentado na grama da rua
Olhando a menina brincar
Ele a vê toda nua
Não deixa a garota pular

Ela parada na praça
Balançando suas tranças
E ele só pensa em traçar
A jorbela da criança

A menina escorrega
Ele sente calor doído
A grama que roça a coxa
É a menina sem vestido

Eu vejo de longe seu rosto
E sinto profundo desgosto
Em não ter imaginação

A menina pulando de tranças
É só
A menina pulando de tranças
Um dia na infância perdida
Vi num canto da rua adormecida
Uma menina-vampira dormindo
Fiquei com medo e fui embora
E nunca mais a vi
Ela deve estar em outro lugar
E eu continuo aqui
Ela deve dormir em outra rua
E eu durmo na mesma cama
Sempre, sempre, sempre
Eu queria,
Antes de morrer
Andar na rua de novo
Só pra ela me morder
Hoje eu tô lerdo
Não sirvo nem pra pensar
Só pra assistir a tv
E ver a Kelly Key cantar
A voz dela entra no ouvido daqui
E sai no ouvido de lá
6 de out. de 2009
O mundo, na verdade, é um cabaré a céu aberto, porque se fosse a céu fechado agente ia ter que pagar pra viver.
O sol queima queima queima
No fogão a sopa
A sopa ferve ferve ferve
O velho chinga chinga chinga
 "A sopa tá pronta"
Grita grita grita
E todo mundo come

Poeminha para deusinia

O sol calora
A testa sua
O suor escorre
Na cara do besta
Salga a boca
E pinga na teta
25 de set. de 2009
Eu pensei na maçã
Mais isso foi ontem
Hoje quero vinho quente no café
É só o que eu quero
Nada de ver o sol nascer



Eu penso que chorar faz mal
Como música idiota
É não cuidar da própria vida
E da de qualquer um que se queira



Quero meu vinho quente no café da manhã
Mesmo que me doa o estômago
E dê dor de cabeça



Me ofereça algo que não seja me tocar
Por favor, não me toque
Tente assim
É mais fácil...



Eu quero paz
Felicidade explícita e dolorosa
Por um instante
A humanidade agradece
24 de set. de 2009
Velhice é quando se
Aquilo que sempre quis ter
Sem esquecer que pra tal
É preciso quase-morrer



É preciso chorar escondido
É preciso um sofá confortável
E também uma boa campanha
De uma vida de sorrisos amargos
E de luz no fim da estrada



É preciso uma fila no banco
É preciso um penico no quarto
E também um colchão duro
De forma que se durma bem
E se se esquecer do café, repetir



É preciso a tal paciência
É preciso a tal solidão
E também enterrar os amigos
De tudo restar o bom-senso
E se o tempo arruinar, remédio



É preciso um pijama de seda
É preciso uma estante de livros
E se o sim perder o sentido, de juízo
De uma padaria por perto
E se o sol esquentar um bom banho



É preciso cuidado ao andar
É preciso um barbeiro confiável
E para vontade de amar, remédio
De almoço uma boa salada
E de água a todo instante



É preciso cuidar do tempero
É preciso olhar para frente
E quando o viver cansar, paciência
De sossego precisa-se sempre
E de música nem tanto



É preciso tomar chá sem doce
É preciso escovar os dentes
E quando o apetite faltar, remédio
De uma ida ao teatro é preciso
E de pagar meia-entrada nem tanto



É preciso ainda verdade
É preciso escolher bem as flores
E muito do mundo guardar
De um sono sofrido ou um pranto
E se a luz se apagar, paciência



É preciso o dia da morte
É preciso sair no jornal
E de vazias palavras breves
De viver nada se leva
E se deixa a despesa da festa
Mais quer, quer, quer
Encontrar a si
Mesmo se for só
E que fique só

Só pra ser feliz
Feliz se for só
Unicamente seu

Sem pesar de ser
Aquilo que o outro quer
Sem mesmo saber
De si

É deixar fluir
O som
Sentir,
A poeira leve
Da solidão

E transformar
Aquele sonho bom
Em tom
Em mar
Mar azul

Sem pedir, sair
Aonde ir, ficar
E viver de sim
Deixar...
22 de set. de 2009
Várias cores,
Tamanhos, odores, idades...
Aquelas que deixam saudades
Aquelas que causam espanto

Pra todo lugar que se olha
Em todo canto
Seguindo mato adentro
Dentro daquele convento

Tem em academia, supermercado, padaria
Em buteco, borracharia, churrascaria
Na previsão do tempo
Quando se anda de avião...
Hoje até em caminhão

Umas rodam feito corrimão
Tem "neguim" que passa a mão
Tem "neguim" que passa não

Uns encontram muito cedo
E não dão sussego
Já outros morrem de medo
Resolvem guardar segredo

Acompanham a história
Estão nos anais da memória

Causando dor e sofrimento
Alegria e esperança

Algumas se escondem tristes
Detrás da aliança
Embaixo da pança...

Já teve a que causou morte,
Guerra, desolação
Mas já teve a intocada
Que guiou revolução

Umas agente deseja,
Busca tamanho é o dia
Outras agente esquece
E deixa molhar na pia

Tem de graça na boate
Pra comprar lá na esquina

Antes era privilégio
De mulher-moça-menina

Homem mesmo não tinha!
Mais nesse mundo do cão
Inventaram a medicina
Que inventou o travecão


(Feita por encomenda como camisa da Ghambiarra)
Um belo dia Lineu
Acordou com a inchada torta e resolveu
Criar para si divisão

Foi invadir o quadrado
De quem estava largado
Comendo seu pão mofado

A coisa já estava armada
Uma tal revolução
-Que quase sempre dá em nada

Inventou hierarquia
Com Reino, Filo e Espécie
Que enquadrasse quem pudesse!

Mas o Verme de longe ouvia
Tão grande latrumia
Do pai da Taxonomia

Agora ele tinha nome,
Classe e regalia

De bicho da goiaba
Tornou-se invertebrado
E ganhou até família!

O Verme marcou reunião
Fez gráfico e planilha
Queria avisar o mundo

Tinha grupo seleto
Ia receber visita
De ilustre parasita

Mais de Rei nada não tinha
A ciência desalmada
Descosturou sua bainha

Picou sua grandeza em filos
E o Verme tão contente
Voltou a ser indigente

Saiu dos confins da terra
Armou seu povo pra briga
E preparou sua vingança:

"Se não posso ter grupo
Resta uma só esperança
Mudar do buraco escuro!"

E para cambiar a vida
Fez cirurgia conhecida
Passou a se chamar Lombriga

Mas por falta de opção
De lugar mais luxuoso
Acabou em buraco novo

Uma velha conhecida
Sempre bem abastecida
E por culpa de Lineu
O bom verme se perdeu
E foi morar na barriga

Biofrases

21 de set. de 2009
O mais forte é apenas aquele com maior número de fibras de actina e miosina.

O mais fraco é apenas aquele que não come proteína.

Vejo no espelhar do teu olho a magnificiência múltipla dos meus músculos hipertrofiados.

No hospital a morte veste branco.

Na porta do quarto 232: "Absolutamente ele morreu".

O atleta corre a maratona, meu sofá se cansa.

Torna o coração cheio - o nervo vago.

Sobe a saia da menina e a adrenalina.

Bater-cabeça não faz mal com plasticidade neuronal.

Anabolizante faz bem a saúde de quem vende ataúde.

Se a síncope é por mim, quem será contra?